quarta-feira, 25 de julho de 2012

Entrevista com Ronaldo Laranjeira


Um dos principais especialistas em dependência química no Brasil fala ao Infosurhoy.com sobre como combater as drogas no país.
Por Cristine Pires para Infosurhoy.com – 20/07/2012

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Ronaldo Laranjeira














“O Brasil precisa enfrentar esta enorme rede de distribuição que, combinada com o preço baixo da cocaína e do crack, fruto do fato de termos vizinhos produtores, alimenta a pandemia [de drogas]”, diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira. (Guilherme Gomes para Infosurhoy.com)

PORTO ALEGRE, Brasil – Para vencer a luta contra as drogas, o Brasil tem investido bilhões de reais em iniciativas para prevenção e tratamento aos dependentes químicos no país.

O foco central é o crack, considerado por autoridades e especialistas um grave problema de segurança e de saúde pública.

Entre as medidas adotadas pelo governo brasileiro está o Plano Nacional de Combate ao Crack, lançado em 2011 e que prevê investimentos de cerca de R$ 4 bilhões em ações de enfrentamento ao crack até 2014.

A meta é que os recursos sejam aplicados em prevenção, tratamento e repressão ao crime organizado.

Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, um dos fundadores da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (UNIAD), é preciso atualizar as políticas públicas nacionais voltadas ao tratamento e prevenção do uso de crack e outras drogas.

Em funcionamento desde 1994, a UNIAD é um centro de excelência em ensino, pesquisa, prevenção e tratamento do uso indevido de álcool, tabaco e outras drogas.

“O primeiro passo é criar uma gestão diplomática entre os países vizinhos para reduzir a produção de drogas”, afirma Laranjeira, que também é professor titular do Departamento de Psiquiatria da Unifesp, diretor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e outras Drogas (INPAD) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Considerado um dos principais especialistas em dependência química do Brasil, Laranjeira falou com exclusividade ao Inforsuhoy.com sobre a importância de envolver todo o país na luta contra a pandemia de crack.

Infosurhoy: Qual a sua avaliação sobre o Plano Nacional de Combate ao Crack?

Laranjeira: Na verdade, o Brasil ainda não se deu conta da gravidade da situação. Tanto que não temos uma gestão diplomática no sentido de diminuir a produção de drogas nos países vizinhos. O Brasil faz fronteira com os maiores produtores de cocaína: Bolívia, Peru e Colômbia. Cerca de 80% da cocaína consumida no país vem da Bolívia, onde a produção continua crescendo. Reduzir a produção nesses países é fundamental..

Infosurhoy: O caminho de entrada da droga no país é praticamente o mesmo ao longo da última década. Por que então o problema se agravou?

Laranjeira: Nos últimos 10 anos, o Brasil registrou um aumento estrondoso no número de pontos de vendas de drogas. Há uma década, o fenômeno estava restrito às grandes cidades. Hoje, verificamos isso de norte a sul, leste a oeste. Todos os municípios brasileiros estão infestados com pontos de tráfico. O Brasil precisa enfrentar esta enorme rede de distribuição que, combinada com o preço baixo da cocaína e do crack, fruto do fato de termos vizinhos produtores, alimenta a pandemia que temos. Se não fizermos uma política rigorosa de conter importação e a rede distribuição, os problemas vão continuar.

Infosurhoy: Mas o sistema de tratamento é eficaz?

Laranjeira: Não adianta ter apenas um sistema de tratamento para diminuir o consumo de crack. Não podemos contar com um monte de boas intenções genéricas. Desde que o governo federal anunciou o plano, em 2010, até agora, pouca coisa mudou. Muitos estados ainda não receberam as verbas prometidas. É preciso levar em conta o aspecto macro do problema: produção, distribuição e baixo preço.

Infosurhoy: Qual sua sugestão então?

Laranjeira: O Brasil tem que definir estratégias para lidar com esses problemas. Os consultórios de rua também não apresentaram eficácia. Quantas pessoas foram tiradas da rua por essa sistemática? Não se tem um número nem mesmo uma avaliação da efetividade dos consultórios de rua. Outro ponto que precisa ser revisto é o fato de o governo defender que as internações dos dependentes químicos sejam feitas em hospitais gerais. Acho isso um absurdo. A maioria dos hospitais não vai querer receber um usuário de crack, e leitos isolados também não vão adiantar. Precisamos ter hospitais especializados.

Infosurhoy: E como trabalhar na prevenção?

Laranjeira: O Brasil teria que criar uma rede de prevenção mais efetiva, com um programa que ainda não temos, voltado principalmente aos grupos de risco. E, quanto a grupos de risco, me refiro a adolescentes que abandonam escola, vão mal nos estudos ou começaram a experimentar drogas. A maioria dos usuários de drogas, cerca de 90%, começa a experimentar na adolescência.

Infosurhoy: A estratégia da redução de danos é uma alternativa?

Laranjeira: A redução de danos consiste em oferecer uma outra droga, teoricamente menos prejudicial, com o objetivo de evitar a abstinência. Alguns países que adotaram esse sistema abandonaram a metodologia nos últimos dois anos. Na Inglaterra, por exemplo, eles descobriram que a eficácia da redução de danos foi de apenas 4%. Quando eles viram que investiram milhões e tinha dado um retorno tão baixo para sociedade, abandonaram o conceito e agora a abstinência é o foco do tratamento. Então, no caso do crack, sou desfavorável à proposta do Ministério da Saúde de fazer tratamento baseado em redução de danos como única alternativa.

Infosurhoy: Qual a alternativa então?

Laranjeira: Nas casas assistidas, programa em São Paulo, os dependentes químicos não podem usar drogas. Além da moradia, eles têm direito a todo o tratamento, mas para ter direito a tudo isso é preciso que fiquem abstinentes. Se em uma casa dessas há 10 usuários e um deles usa a droga, é mais provável que aquele que recaiu leve os outros 9 com ele. Isso mostra o drama que é o uso do crack.

Infosurhoy: Mas então é possível recuperar usuários?

Laranjeira: Certamente. O Ministério da Saúde precisa oferecer uma estrutura de tratamento via clínicas de internação. O Sistema Único de Saúde (SUS) não tem esse nível assistencial. Por enquanto, só quem tem dinheiro procura uma clínica de qualidade. O Ministério da Saúde precisa ter a visão do que realmente funciona no sistema de tratamento e abandonar técnicas ultrapassadas. Além da falta de experiência conceitual, a burocracia impede o dinheiro do programa de chegar aos locais que necessitam dessas verbas.

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Fonte: Blog Dependência Química (Clique aqui para conferir a matéria no site)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Das ruas para a vida

Mateus e Carlos André (Galeguinho)














Quando criança tinha 6 anos de idade e morava em Casa Amarela (Região Metropolitana do Recife), fui com a minha mãe fazer feira, foi quando me perdi. Então, eu peguei um ônibus e fui parar no centro do Recife, onde encontrei outros meninos e me juntei com eles. A partir desse dia me tornei menino de rua.

Comecei a cheirar cola e praticar mendicância. Aos 12 anos encontrei Demetrius, que estava fazendo trabalhos nas ruas do Recife com outros meninos e meninas. Após isso fui encaminhado para o Sitio Clarion da Comunidade dos Pequenos Profetas em Igarassu.

Chegando no sitio, aos poucos fui deixando as drogas e logo depois comecei a estudar e participar das atividades agrícolas da CPP. Aos poucos fui mostrando meu interesse em mudar de vida, foi quando a CPP fez contato com a minha família. A partir desse contato fiquei indo passar os finais de semana com a minha família e aos 18 anos tive que deixar a CPP por conta da idade.

Então passei a morar com a minha avó e continuei estudando e mantendo contato com a CPP, foi quando tive uma oportunidade de trabalhar lá, e a partir dessa oportunidade fui construindo um sonho de ter uma família.

Hoje, aos 34 anos, tenho orgulho de falar para todas as pessoas que já fui menino de rua e com a ajuda das pessoas que fizeram parte da CPP estou muito agradecido por terem me dado uma oportunidade de mudar de vida.

Essa é uma história de vida que aconteceu comigo e gostaria que todos os  meninos e meninas de rua soubessem que também são capazes de mudar assim como eu.

Com muita força de vontade qualquer pessoa pode mudar de vida, é só querer!

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Carlos André B. de Moura é educador da CPP

terça-feira, 17 de julho de 2012

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Verdades que não passam | 001

Estamos aqui iniciando uma série de posts com o tema "Verdades que não passam" focando a ideia de que na publicidade, apesar de que as campanhas usadas aqui tenham passado há algum tempo, a verdade contida nelas é de extrema importância, logo, "não passam".



















"Só existe um caminho para quem usa crack"
Agência: Africa

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Diego de Paula é publicitário e educador da CPP

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Não matem minhas crianças (por Demetrius Demetrio)

Não matem minhas crianças















No final da década de 1980, a Comunidade dos Pequenos Profetas, espalhou pelos muros da Cidade do Recife a frase “Não Matem minhas crianças”, com o intuito de conter os extermínios ocorridos na cidade contra as crianças e adolescentes em situação de risco social.

Por mais que essa frase tenha mexido com o imaginário das pessoas, ela rompeu barreiras e despertou ações tanto a nível local, nacional e internacional, na luta da garantia dos direitos essenciais da pessoa humana.

Hoje o crescimento econômico de Pernambuco, por mais importante que possa ser, é absolutamente insuficiente para se acabar com a gravidade da situação de miséria de grande parte dos pernambucanos.

A realidade social torna-se mais perversa no drama da miséria humana; novos desafios vão surgindo para o público invisível do poder público: O crack que tanto tem sido manchete nos jornais, TV aberta e radio, destruindo sentimentos e valores.

Para os consumidores dessa pedra mágica (forma menos pura da cocaína), os segundos vão consumindo seus sonhos, sua vontade de viver, muitos relatam que ele é como o primeiro beijo, deu se apaixonou e se viu dentro dessa paixão, vendendo o seu próprio corpo por tão pouco, praticando pequenos furtos, homicídios, somente para ter um beijo mais prolongado. Nesse estagio a própria família já não existe, o Estado não é onipresente (pois não é Deus), O organismo passa a funcionar em função desse beijo, uma paixão que tira a vontade de comer , de dormir, faz esquecer os hábitos básicos de higiene, e aumenta a criminalidade na cidade, apavorando a todos.

Engana-se pensar que somente a população dos 60% da RMR que vivem em situação de pobreza fazem parte dessa paixão; segundo o Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas o uso da droga alcança 7% da população em Pernambuco, onde se estima que o número de usuário de CRACK no nosso Estado é de 30 mil pessoas.

As novas tecnologias sociais aplicadas na pratica pelo Terceiro Setor no atendimento direto aos usuários de crack, vem fazendo a diferença de modo peculiar, com doses de carinho e afeto onde as esferas governamentais não conseguem entender ou ajudar nessa manobra de cunho subjetivo (mundo interno). Por esses e outros motivos, essas ações vem crescendo e acrescentando diferença na nossa cidade.

Cabe ao Estado garantir a continuidade de ações que fazem a diferença, que efetivem a cidadania, que reescrevem uma nova historia junto aos pernambucanos menos favorecidos.

De que adianta tanto investimento público, se na realidade de fato, os resultados não são visíveis, o que parece é que os números são importantes para a divulgação na mídia, mas reescrever historia destes cidadãos requer pessoas comprometidas com a formação de valores humanos.

Como diria Paulo Freire, o ser humano precisa acompanhar o conhecimento, se tornar um homem de seu tempo para sobretudo, ter consciência de como aplicá-las.

Infelizmente a formação de valores está comprometida pelo desequilíbrio social, onde não se valoriza o amor pelo próximo, o respeito mútuo; enfim, onde se dá mais valor ao ter do que ao ser.

E no submundo das ruas do centro do Recife e da periferia da RMR, a vontade de roubar para ter, passa se a ser a vontade de roubar para manter a paixão sem freios por uma pedra que os leva a morte.

Talvez uma nova frase possa fazer parte do imaginário das pessoas, como foi com a frase “Não matem minhas crianças”, uma frase que possa comprometer o poder público, a sociedade, a comunidade, a família.

“Eu quero viver” foi o que eu escutei de um dependente na Praça do Mercado de São José, às 23 horas do dia 23 de junho, sujo, agachado a um entulho de lixo, abrindo sacos de restos de comida, comendo com as próprias mãos, transtornado pelo efeito de um dia de consumo do beijo que está levando o pouco de dignidade que ainda lhe resta como ser humano.

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Demetrius Demetrio é Gestor da CPP, Educador e Gastrônomo, estudante de pós-graduação em Praticas Gastronômicas na UNINASSAU